sexta-feira, 18 de setembro de 2009

a pequena história de um menino pequeno

era um rapaz, e era pequeno. a descrição dispensava adjetivos idôneos, carregados de moral e prolixidade. não, era apenas um pequeno rapaz, fosse em sonhos ou fosse em estatura. ao menos em estatura era mais do que esperado, pois ainda estava lá aos seus 15 anos, idade aquela em que muitos questionamentos afloram e poucas respostas mostram a cara.
mas em sonhos talvez fosse sua maior falha, sua maior fraqueza. não podia sonhar, mesmo que quisesse. sua capacidade fora arrancada de maneira brutal quando ainda era um inconsciente do que se passava ao seu redor, quando nada podia fazer para defender aquela bela moça que berrava enquanto um homem feio e mau-cheiroso agarrava-a pela cintura. certo, talvez não fosse de todo sua culpa, mas ele perdera também a vontade de tentar, o que é algo que se lhe atribuía inteiramente.
pulando etapas deprimentes demais para tempo de menos, ele agora era um pequeno rapaz, exatamente onde começava toda a divagação. fitava o céu azul, com uma expressão tão vaga que as nuvens já imaginavam estarem manchadas de tinta cor de rosa. os pássaros questionavam sua integridade moral ante olhos tão profundos, as estrelas (escondidas atrás do dia-azul-vivo) lamentavam tanta indiscrição vinda de alguém tão insignificante.
deus nada disse pois não estava lá. nunca esteve.
a matéria escura escureceu, a gravidade gravitou, ondas ondularam... tudo algo fez enquanto ele observava, de maneira inerte, a tudo e a todos. o incômodo gerado por aqueles olhos negros e sinceros era tão grande que até mesmo a grandeza, em sua espetacular posição de palavra abstrata, desceu do pedestal por um instante para olhar aquela franja distoante do resto das roupas amarrotadas.
nada disseram, nada fizeram.
nada. nada.
então ele deitou-se, para mais um dia de sono sem sonhos.
por um instante, havia compreendido sua pequenez.
mas então tudo se fora, assim como o espanto soberbo que criara sua certeza momentânea, sua certeza assustadoramente perspicaz de que ele somente era pequeno porque tudo o mais era imenso, e não o contrário.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

rápido pensamento no farol

fico assim, atinando para meus botões não clássicos e nem modernos como o dos ternos alheios, que talvez não faça assim tanto sentido tentar encontrar o sentido em tudo aquilo que vejo ou que se vê ou que vê-se ou que aproprie-se de qualquer outro tipo de figura de linguagem metafórica ou não. mesmo, de verdade, talvez devesse seguir rumo a alguma aldeia que solte fumaça pelas chaminés e encaixar-me num molde qualquer, vestindo as roupas que vestem, calçando os sapatos que calçam, bebendo a mesma marca de bobagem. é, fumar também.

[o sinal está agora amarelo]

sim, estou na cidade, somente contextualizando os porquês de um pensamento tão breve e sem pé e muito menos cabeça. a cidade, a cidade, a cidade. talvez seja ela de fato um amontoado de pedras e vidros com gentes e desejos dentro, como um monte de palmito em conserva, cada um se achando muito mais palmito que o outro. ah, que sejam palmitos ou não palmitos, mas o fato é que vivem sim pisando uns sobre a cabeça dos outros, e nem metaforicamente para - ao menos - amenizar o peso das palavras bélicas.
mas talvez (palavra recorrente), seja este mesmo o fator predominante na angústia que se abateu sobre minha pessoa. talvez as pessoas medíocres e hipócritas que estavam caminhando e cantando e seguindo as placas de sinalização pelos corredores também tenham influído de certa maneira para o abalo cataclísmico. talvez a rápida conversa sobre fatos ruins com uma amiga tenha acrescido o montante total de insipidez.

o motivo mesmo não sei.
enquanto estava eu e as outras pessoas no meio da favela (sim, no meio da favela, apresentando uma peça de teatro e o resto não importa), durante o cortejo que aspirava chamar a todas e todos dali para participar de tudo e tudo e tudo, eu senti mesmo foi vontade de chorar. não pelos motivos triviais e tão auto-explicativos de sempre, aqueles que geram excelentes matérias para programas de auditório. não, jamais. aqueles geram expressões de falsa preocupação.
o que realmente me agulhou a garganta e o coração foi saber que, assim que o sol resolvesse ir dormir, eu poderia voltar para casa, ligar o computador, comer, beber, dormir. elas e eles continuariam ali, no meio de casas de frágil madeira, apertados na beira de um rio desgostoso, carentes de carência, tão duros já estão de tanto apanhar da vida.
isso me dá raiva. de mim, de você, de todos nós.
e o que eu faço?

perco-me em divagações velozes, que me agoniam por um dia, que me esgoelam de querer gritar de tanto ódio repreendido. mas isso, claro, porque ainda tenho meu computador, minha cama, meu comer, meu beber. isto, porque tenho o meu ter.
sou meu. e eles?
são de quem?
[e o sinal ficou verde, a favela fica para trás]
mesmo que não esteja no carro, há uma tonelada de metal entre eu e eles.

e isso dói.